Processos, mentiras e vídeo

. sábado, 13 de Setembro de 2008
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http://portsmouth.theoffside.com/files/2008/05/luisao.jpg

O sistema de análise disciplinar e prova através de imagens das transmissões só tem penalizado o Benfica nos últimos anos e constitui um sério handicap com implicações desportivas, que tende a prejudicar o clube mais mediático e mais exposto ao escrutínio da comunicação social. Os castigos sumários aos jogadores do Benfica, na hora da comunicação global, são o preço a pagar pela fama e que, por mais injusto que pareça, só deviam obrigar os jogadores e dirigentes do clube a exercitarem o autocontrolo e a disciplina como factores indissociáveis do triunfo.

Desde o começo da década de 90, foram diversas as tentativas de viabilizar as punições por meios audiovisuais, embora sempre rodeadas de polémica por causa da disparidade de critério, que favorece os clubes menos atendidos pelos meios de comunicação. Quando começou, o desnível mediático era ainda mais acentuado, pois havia apenas uma partida televisionada por semana e em muitos jogos as equipas de reportagem chegavam a falhar a captação de imagens dos golos e dos lances mais importantes. Passou-se então para uma segunda opção, que era a de recorrer às imagens somente para despenalizar e não para penalizar.

A partir da viragem do século, com a regularidade das transmissões em canal temático, a Comissão Disciplinar retomou a velha ideia de usar as imagens para castigar o que o árbitro não vê, mas de novo, nada mais conseguiu do que exacerbar o controlo sobre os grandes clubes, Benfica em particular, por ser de longe o campeão dos tempos de transmissão.

Indiferente à maioria dos clubes, esta questão parece dizer respeitoapenasa Benfica e FC Porto, os mais afectados, e que, por isso, deviam unir-se e não dividir-se. A guerra entre ambos os emblemas a pretexto destes processos é muito antiga e picada a níveis que chegam a roçar o ridículo. No auge dos problemas do FC Porto com actos de indisciplina punidos através do vídeo, em 2004-05, foi tentada por todos os meios a suspensão de Simão Sabrosa por alegada agressão a Alex (em que este serviu de testemunha do capitão encarnado) e tambémdePetit,poralegada agressão a Targino, ambos numa partida com o V. Guimarães. O motivo era simples: o jogo seguinte do Benfica era nas Antas e um resultado positivo podia ter implicações na conquista do título. Felizmente, as imagens eram mais nítidas do que as agora apresentadas pelo Benfica para reclamar a suspensão de Rodríguez e a aldrabice foi desmascarada pela verdade.

RUI ÁGUAS, A PRIMEIRA VÍTIMA

Em Março de 1993, quando os portugueses ainda se adaptavam às transmissões regulares dos jogos do campeonato, procurando acompanhar as tendências internacionais, a Federação aplicou sobre Rui Águas, do Benfica, o moderno justicialismo on-line. As câmaras captaram o avançado a empurrar um jovem apanha-bolas que procurava protelar a pressão encarnada de chegar ao golo, num jogo complicado em Faro, que se ficava pelo 0-0. Miranda de Sousa, o árbitro, não viu nada. Mas o realizador da RTP não se cansou de repetir a cena e o castigo veio mesmo a tempo: o jogo seguinte era com o Sporting e o goleador ficou de fora, gerando de imediato um coro de protestos tão forte que a novidade acabou por ser abandonada no final da temporada.

PIERRE VAN HOOIJDONK EM JULGAMENTO AVULSO

À segunda tentação persecutória da Liga com base nas imagens televisivas foi uma situação ainda mais avulsa e extemporânea, embora justificada pelo aparato. O Benfica tinha perdido a corrida do título para o Boavista e lutava para se manter no topo da classificação, quando o holandês Pierre van Hooijdonk ao libertar-se do defesa Duca, do Campomaiorense, que o derrubara dentro da grande área, acabou por atingi-lo com a mão. O holandês apanhou dois jogos de suspensão e o Benfica acabou por descer ao 6º lugar, um ano depois de Vítor Baía por lá ter andado impunemente à estalada com o dirigente Pedro Morcela. Toni, o treinador encarnado, já então protestava: "Não existe uma uniformidade de critérios. Há uma grande revolta em relação àquilo que aconteceu. A Comissão Disciplinar da Liga ou visiona todos os jogos, de todos os clubes, ou nenhum, ou então andamos a brincar com isto".

FALHA COMUM A TODOS OS ÁRBITROS

Para Jorge Sousa, o castigo a Luisão é uma novidade. Aliás, é curioso que os processos registados nos últimos cinco campeonatos tenham sempre ocorrido com árbitros diferentes, tocando praticamente a todos, com realce para Pedro Proença, Lucílio Baptista, João Ferreira, Pedro Henriques, Duarte Gomes, Paulo Paraty e Bruno Paixão.

ANO LOUCO DE 2005

Em quatro jornadas consecutivas, na época mais incaracterística do FC Porto, outros tantos jogadores foram suspensos por lances violentos vistos na televisão e não sancionados pelos árbitros respectivos. A crise de liderança estava instalada no Dragão, que conheceu três treinadores, e o Benfica beneficiou para conquistar o seu único título em mais de dez anos. Um dos jogadores, Benny McCarthy, tornou-se então no primeiro e até agora único jogador castigado duas vezes em processos sumaríssimos, depois de no ano anterior ter andado ao soco com Beto, do Sporting.

McCarthy - A série abriu com McCarthy a apanhar três jogos por um soco em Danilo, da Académica.

Luís Fabiano - Castigado por um empurrão, depois de ter visto apenas amarelo numa cotovelada a Renato, da U. Leiria.

Pedro Emanuel - Dois jogos (pena inicial de um agravada pelo recurso) por agressão a Wender, do Sp. Braga.

Seitaridis - Dois jogos por cotovelada em Fellahi, do Estoril, não sancionada por João Ferreira.

BENFICA E FC PORTO SOB PRESSÃO

O resumo dos processos sumaríssimos da Liga que deram lugar a castigo, nos últimos anos, mostra bem quem são os principais alvos da Comissão Disciplinar.

FC Porto - 5 (2004/05 e 2005/06)

Sp. Braga - 1 (2004/05)

Estoril - 1 (2004/05)

V. Guimarães - 1 (2004/05)

Marítimo - 1 (2005/06)

U. Leiria - 1 (2005/06)

Benfica - 3 (2006/07, 2007/08 e 2008/09)


Fonte: Jornal Correio da Manhã

Autor: João Querido Manha

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